Interface do CRM unificado da Kenlo mostrando painel de atendimentos

Escalar produtos através da evolução do ecossistema

Empresa Kenlo (Proptech)
Período 2022–2024
Duração 12 meses
Papel Product Designer

Resumo

A Kenlo estava perdendo imobiliárias para uma concorrente que dominava o processo de pré-atendimento. Para competir, o produto precisava expandir seu escopo, mas a arquitetura existente tornava isso inviável. Conduzi a pesquisa que revelou que o problema ia muito além da interface: era estrutural. Isso redirecionou o projeto de um redesign cosmético para uma refatoração completa do sistema, desbloqueando o roadmap de produto e impulsionando os usuários ativos de 214 para 20.000 em 18 meses.

Oportunidade

A Esteira Digital da Kenlo foi construída para suportar um produto financeiro específico: o Kenlo Garante, uma solução de garantia locatícia. O fluxo original (proposta, garantia e formalização) era intencional: o corretor criava a proposta, vinculava a garantia da Kenlo e encaminhava para o Kenlo Locação, plataforma proprietária que monetiza por contrato administrado.

O cenário mudou quando soluções focadas exclusivamente no pré-atendimento começaram a ganhar espaço nas imobiliárias, cobrindo a captação de leads, gestão de visitas e acompanhamento do cliente antes da proposta. A Kenlo não tinha nada disso, e as imobiliárias pagavam por esses serviços separadamente.

A decisão estratégica foi expandir a Esteira para cobrir todo o funil, trazendo o pré-atendimento para dentro da plataforma. A lógica era direta: com o fluxo completo na Kenlo, haveria mais retenção, mais dados e espaço para monetizar com novas funcionalidades, o que de fato aconteceu.

Mas havia uma barreira crítica: apenas 3% da base usava a Esteira como plataforma principal. Sem resolver isso, a expansão do produto não teria tração.

Tela anterior do funil de atendimentos onde cada card é um imóvel
Tela anterior do funil de atendimentos onde cada card é um imóvel.

Descoberta

O projeto chegou para mim como uma tarefa pequena de redesign visual. Enquanto explorava o produto, percebi que os problemas que via não tinham solução visual. Corretores abriam a tela e simplesmente não conseguiam trabalhar: um cliente com cinco imóveis de interesse virava cinco cards desconectados no kanban. Não havia histórico. Não havia contexto. Propor melhorias estéticas em cima disso seria trabalho desperdiçado. Precisei entender a profundidade do problema antes de propor qualquer direção.

Tela anterior do atendimento com apenas um imóvel de interesse
Tela anterior do atendimento com apenas um imóvel de interesse.

Comecei realizando 20 entrevistas com corretores e gestores de imobiliárias de diferentes portes e regiões. O pesquisador da equipe me auxiliou nos agendamentos, na definição dos métodos, nas anotações durante as sessões e na análise dos dados, mas eu era responsável por conduzir as entrevistas, realizar os testes com usuários e sintetizar os insights para apresentar ao time de produto e direcionar o projeto.

Assisti também mais de 50 sessões gravadas buscando padrões de travamento, e analisei o histórico de tickets de suporte: 40% das reclamações eram sobre não conseguir recuperar o histórico de um cliente. Organizei workshops com PMs, tech leads e o outro designer para alinhar os achados e priorizar o escopo da solução.

Dinâmica de priorização com apoio de times de desenvolvimento, produto e dados
Dinâmica de priorização com apoio de times de desenvolvimento, produto e dados.

O que encontrei

Três problemas centrais se confirmaram, e todos apontavam para a mesma raiz:

  1. Contexto perdido: corretores não sabiam se já tinham atendido aquele cliente, quais imóveis ele havia visto, qual era a última interação
  2. Kanban ingerenciável: imobiliárias com alto volume tinham centenas de cards duplicados, impossível trabalhar
  3. Arquitetura bloqueada: funcionalidades que estavam no roadmap há anos eram tecnicamente inviáveis com a base de dados existente

Esse foi o ponto de virada. Apresentei o diagnóstico ao time: o projeto não cabia mais numa melhoria de interface. A arquitetura precisava ser refatorada do zero.

Resultados

Decisões de design

A mudança central foi reorganizar o sistema em torno do cliente, não do imóvel. Um cliente passou a ter um único card, com todas as interações, visitas e propostas vinculadas a ele. Histórico preservado, contexto sempre acessível.

Header global unificado: o divisor simbólico entre a versão antiga e o "Novo Imob", com navegação integrada entre todos os módulos.

Funil de conversão com os atendimentos unificados
Funil de conversão com os atendimentos unificados.

Tela de detalhes repensada: resumo do cliente à esquerda para contexto rápido, conteúdo principal à direita segmentado em blocos, com destaque visual para pendências.

Tela de detalhes do atendimento unificado
Tela de detalhes do atendimento unificado.

Cards simplificados: remoção de informações excessivas, padronização de status e foco em escaneabilidade rápida.

Comparação entre os cards da versão antiga e da versão nova
Comparação entre os cards da versão antiga e da versão nova.

Fluxo de novo atendimento redesenhado: o CTA mudou de "Novo cliente" para "Novo atendimento", refletindo a mudança conceitual do sistema.

Tela de cadastro de novos atendimentos
Tela de cadastro de novos atendimentos.

Handoff e colaboração técnica

Para um projeto com múltiplos fluxos e dezenas de cenários, estruturei uma documentação com especificações de comportamento detalhadas e um índice numerado para facilitar a navegação — uma evolução em relação ao padrão da empresa na época. Trabalhei próximo a três engenheiros navegando constraints de Vue e React, tomando decisões de tradeoff entre o ideal e o tecnicamente viável.

Deploy

A migração foi tratada como decisão de produto: não forçamos a transição. Criamos uma tela de transição que permitia cada imobiliária migrar no próprio ritmo, com suporte e treinamento durante o processo. 90% das imobiliárias que migraram fizeram isso por escolha própria.

Métricas

Usuários ativos

214 20.000

Intervalo de 18 meses

Taxa de adoção

3% 32%

Do total de usuários

NPS

2.6 4.0

Avaliação mensal recorrente

A nova arquitetura também desbloqueou o roadmap: funcionalidades que eram tecnicamente inviáveis passaram a ser desenvolvidas, e a estabilidade do sistema aumentou significativamente.

Aprendizados

Pesquisa abrangente define o escopo real do projeto

Esse foi o aprendizado central. O projeto chegou como um redesign cosmético, e se eu tivesse simplesmente executado, teria entregado uma interface mais bonita em cima de uma arquitetura quebrada. Foi a pesquisa com corretores, gestores, CS e suporte que revelou o problema real e me deu argumentos concretos para defender um escopo muito maior. Cada grupo enxergava uma dimensão diferente do sistema; só com todos os ângulos juntos foi possível ver o todo.

Arquitetura de informação precede design de interface

A decisão de reorganizar o sistema em torno do cliente, e não do imóvel, não foi visual: foi conceitual. Quando o problema é estrutural, mudar a aparência não resolve. Essa distinção passou a guiar como eu avalio e proponho projetos.

Migração gradual é estratégia de produto

Dar controle sobre o ritmo da transição foi o que garantiu que 90% das imobiliárias migrassem por escolha própria. Transições forçadas criam resistência; autonomia cria adesão.